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Biologia Atualidades

“Cura do câncer” pode estar mais perto

Utilizando células do nosso próprio corpo, cientistas da USP conseguiram desenvolver um tratamento inovador na “cura do câncer”. Confira a entrevista exclusiva com o Dr. Lucas Souza, um dos responsáveis pela descoberta.

Autor Representação de uma pessoa Matheus Data Representação de um calendário 23/10/2019 Tempo Representação de um relógio 10min  de leitura

Movimentando toda comunidade científica desde da divulgação, um novo tratamentos com CAR-T Cells entra no horizonte da luta contra o câncer. Com isso, para descobrir mais detalhes sobre o tema e para saber se a “cura do câncer” está mais próxima, entrevistamos o Dr. Lucas Souza, coordenador do Laboratório de Terapia Gênica da USP e um dos responsáveis pelo sucesso do tratamento.

Como você chegou no laboratório de terapia gênica?

Lucas Souza: Eu visitei o Hemocentro de Ribeirão Preto (onde fica o laboratório) quando ainda estava no ensino fundamental em um programa chamado “Casa da ciência”. Nesse programa, que existe até hoje, os alunos do ensino fundamental e médio podem vir e participar de cursos com pesquisadores e até desenvolver projetos de Iniciação Científica (IC).

Depois, eu voltei para o hemocentro na época da minha graduação de Biologia em um curso de verão. Esse é um centro de terapia celular que existe há quase 18 anos. Assim, eu me interessei e acabei fazendo a minha pós graduação inteira aqui, estudando terapia celular.

Faixada do Hemocentro de Ribeirão Preto onde a Terapia CAR-T, que trouxe avanços para a cura do câncer, foi produzida
Hemocentro da Usp de Ribeirão Preto (Foto: FMRP/USP)

Terminado essa fase, saí do país para fazer meu pós-doutorado em hematologia (estudo do sistema circulatório). Atualmente, estou na direção do Laboratório de Transferência Gênica e sou um dos responsáveis pela elaboração da primeira terapia CAR-T Cells (Células- T CAR em português) na América Latina.

O que é o câncer?

Lucas Souza: O câncer é uma doença de fundo genético, causada por uma ou mais mutações no DNA. Fundamentalmente, essas mutações acabam fazendo com que as células percam a capacidade de ter seu crescimento controlado, proliferando-se de forma descontrolada.

No estágio inicial, existe a formação de uma massa tumoral que será diferente dependendo de onde ocorreu essa a alteração genética. Caso a mutação seja em células sésseis, o tumor gerado formará uma “massa” no local onde foi inciado. Por isso, nós chamamos ele de sólido. No caso de ocorrer em células da circulação, como as sanguíneas, nós chamamos de líquido.

Depois de um tempo, já em um estágio mais grave dos tumores sólidos, nós temos aquilo que chamamos de metástase. Em outras palavras, além do crescimento inicial, algumas células adquirem a capacidade de invadir o tecido adjacente e colonizar outros órgãos, dificultando o tratamento e tornando tão difícil a “cura do câncer” (que é corretamente chamada de remissão).

Quais são as dificuldades de tratamentos dos cânceres?

Lucas Souza: A resposta mais curta é a complexidade de entender a diversidade desta doença, que não era conhecida até tempos atrás. Atualmente quando olhamos para as alterações celulares que ocorrem de individuo para individuo, nós tiramos a conclusão que, na verdade, o câncer não é uma doença, mas sim milhares.

Então essa é a primeira dificuldade. Se nós tentarmos atacar determinado circuito molecular ou sinalização bioquímica de algumas células cancerígenas, a mesma técnica talvez não seja eficiente para afetar o câncer de outros indivíduos. Por isso, é necessário entender quais as terapias mais eficazes para cada paciente ou cada conjunto de pacientes.

Um exemplo disso é que muitos cânceres criam novos vasos sanguíneos para conseguir se suprir de oxigênio. Por isso, as primeiras idéias de tratamentos foram para cortar o suprimento vascular, o que não funcionou muito bem. Esta abordagem funcionou parcialmente, pois quando nós inibíamos uma via bioquímica, as células mutantes acabavam por utilizar outras vias e, assim,  resgatavam a capacidade de gerar novos vasos sanguíneos.

Representação de um tumor sólido com vários vasos sanguíneos.
O câncer necessita de uma grande irrigação de vasos sanguíneos.

Uma outra questão importante é que o tratamento pode atuar como um processo de seleção natural da própria doença. Ao aplicar um tratamento para matar as células tumorais, uma pequena parte delas pode ser resistente àquela terapia e começa a tomar conta do tumor. Ou seja, você faz uma seleção de uma subpopulação de células resistentes que irão se tornar maioria.

Mas temos evoluído muito. Hoje em dia, para muitas tumores malignos, nós temos conseguido a cura do câncer. Mas o importante ainda é a prevenção. Por isso é importantíssimo buscar uma rotina de hábitos saudáveis. Além disso, investir no diagnóstico precoce facilita o tratamento principalmente pela detecção do tumor em seu estágio inicial.

E qual a novidade do tratamento CAR-T Cells? A cura do câncer está mais próxima?

Lucas Souza: A chave dessa nova terapia é o sistema imune. No sangue, temos células chamadas de glóbulos brancos, ou leucócitos, que compõem o nosso sistema de defesa. Um dos tipos celulares dessa defesa são chamados de linfócitos-T que são especializados em diferenciar o que é nosso organismo e o que não é.

Por consequência, ao identificar uma bactéria, vírus ou outro organismo, as células -T irão ativar uma cadeia de ataques contra o invasor. E aí temos um ponto interessante: por serem aberrações, os tumores podem expressar proteínas “mutadas” – que passaram pelo processo de mutação – e que podem ser reconhecidas como estranhas por essas células.

Cura do câncer aconteceu em paciente em quem a terapia CAR-T foi operada.
Após 30 dias de tratamento de CAR-T, o paciente já quase não apresentava mais sintomas da doença.

Então, o que essa nova terapia propõem é explorar as resposta das células de defesa, através da engenharia genética. No caso do linfoma, as células cancerígenas têm uma proteína que as células-T não consideram estranha: proteína CD 19.

Porém ao inserir um fragmento de DNA nos linfócitos-T, eles começam a codificar uma proteína receptora capaz de reconhecer a CD 19. Colocada de volta, no corpo do paciente, essa nova célula irá reconhecer as células tumorais expressando CD19 e, assim, eliminar as células tumorais. Isso pode significar a cura do câncer para alguns.

E o CAR-T Cells funciona para todos os cânceres?

Lucas Souza: Não, atualmente a técnica poderá ser usada alguns tipos de linfomas e leucemias. O primeiro caso de aplicação foi especificamente para linfoma.

Ao mesmo tempo também estamos trabalhando e estudando para expandir o tratamento para outros tipos de tumores, especialmente os sólidos. Em geral, esses tipos de tumores são mais difíceis de tratar porque existem mecanismos que adormecem células do sistema imune quando elas tentam destruir o tumor.

E como surgiu a ideia do tratamento?

Lucas Souza: O desenvolvimento do receptor que reconhece tumores surgiu em 1989 em um grupo de pesquisa de Israel. Desde então ela foi sendo aprimorada ao longo do tempo com muitas pessoas estudando isso. Depois de comprovarmos que a ciência e a técnica poderiam funcionar clinicamente, tivermos a ideia de traze-la para cá.

Nós olhamos o que era necessário para fazer e, observando as técnicas que nós temos disponíveis no laboratórios daqui, nós conseguimos em apenas 4 anos trazê-la para cá e tentar implementar essa terapia aqui no Brasil.

Qual a equipe envolvida na “CAR-T Cells”?

Foram vários laboratórios de pesquisa envolvidos na geração dessa nova terapia. O projeto como um todo abarcou biólogos, biomédicos, químicos, farmacêuticos, médicos e até engenheiros químicos no desenvolvimento e construção genética das CAR-T Cells.

E quais os próximos passos para esse tratamento?

Lucas Souza: É justamente com isso que estamos mais preocupados. Primeiramente, queremos expandir a nossa capacidade de atender mais pacientes. Para isso, precisamos de apoio para aumentar a área laboratorial e também difundir a técnica para outros centros que podem fazer o mesmo procedimento. 

Atualmente, um tratamento similar com CAR-T Cells é oferecido por 2 empresas americanas com custo de aproximadamente 1,6 milhões de reais. Ou seja é muito caro. Aqui nós conseguimos produzir os mesmos resultados com menos de 10% desse valor e mais barato que várias terapias com uso de drogas.

Por isso, é uma oportunidade muito grande. Hoje estamos buscando apoio de entidades de fomento e apoio político para mostrar que isso é uma terapia inovadora e que vale a pena implementar e oferecer isso ao SUS. Então, essa é a parte que saímos um pouco da parte técnica e entramos no assunto de política pública e gestão de saúde.

PALAVRAS-CHAVES: Câncer célula EntrevistaBT Pesquisa Sistema Imunológico